A experiência de cruzar túneis centenários escavados na rocha

Parque Tanguá endereço

O apito da locomotiva corta o ar frio da manhã na Rodoferroviária de Curitiba, e ali, entre o vapor e o burburinho dos passageiros, começa algo que vai muito além de um simples deslocamento geográfico. Quando o trem inicia sua descida suave em direção à Serra do Mar paranaense, a sensação é de que estamos desvendando um segredo guardado por encostas íngremes e uma vegetação tão densa que parece querer retomar os trilhos para si. Não é apenas sobre chegar a Morretes; é sobre o que acontece no intervalo entre o planalto e o litoral. A engenharia ferroviária do século XIX, liderada pelos irmãos Rebouças, desafiou a lógica da época. Ao entrarmos no primeiro dos 13 túneis da ferrovia Paranaguá-Curitiba, o mundo exterior desaparece. Por alguns segundos, o som metálico das rodas contra os trilhos reverbera nas paredes de rocha bruta, escavadas a picareta e pólvora há mais de 140 anos.

O cheiro de terra úmida e o frescor que invade o vagão trazem uma conexão física com a história. É um mergulho no escuro que prepara os olhos para o espetáculo que vem a seguir: a explosão de verde da Mata Atlântica e o abismo que se abre logo após a saída da rocha. Um dos momentos mais emblemáticos dessa travessia ocorre no Viaduto do Carvalho. É ali que o coração aperta um pouco mais. O trem parece flutuar sobre a encosta, já que a estrutura de suporte fica escondida sob a composição. De um lado, o paredão de pedra; do outro, a imensidão que alcança o conjunto Marumbi. É um exercício de contemplação técnica e sensorial. O que observar durante a descida: A transição climática: Curitiba pode acordar sob uma névoa densa e 12°C, mas, à medida que perdemos altitude, o ar torna-se mais denso, quente e carregado com o aroma da mata úmida.

A arquitetura das estações: Paradas como Piraquara e Banhado conservam o charme de uma época em que o trem era o único cordão umbilical entre o porto e a capital. A fauna e flora: Se você estiver atento, é possível avistar bromélias gigantes e orquídeas que só florescem nessas condições de umidade extrema. Muitos viajantes cometem o erro de focar apenas na fotografia perfeita para as redes sociais e esquecem de sentir o movimento. Como especialista que já percorreu esses trilhos em diferentes épocas, noto que o inverno oferece uma visibilidade excepcional, com céus azuis que permitem enxergar até o brilho do mar no horizonte de Paranaguá. Já o verão traz as cachoeiras mais cheias, que despencam das montanhas como fios de prata em meio ao verde. Ao final do trajeto, a chegada em Morretes é um convite ao paladar. O aroma do barreado — cozido lentamente em panelas de barro por mais de doze horas — domina as ruas de paralelepípedo da cidade histórica.

Sentar-se à beira do Rio Nhundiaquara para saborear o prato, acompanhado de farinha de mandioca e banana, é o rito de passagem obrigatório. Para quem busca uma experiência completa, o ideal é não se limitar ao trem. O receptivo especializado permite que o retorno seja feito pela Estrada da Graciosa, com suas curvas sinuosas e calçamento de pedra original, ou uma esticada até Antonina para provar as balas de banana e observar a baía. Viagens assim não se medem em quilômetros, mas na densidade das memórias que levamos de volta para o planalto. Cruzar aqueles túneis é, no fundo, atravessar o tempo e perceber que, apesar de toda a tecnologia moderna, a força da natureza e a audácia humana de outros séculos ainda conseguem nos deixar sem palavras.